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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Força da Natureza

Por Anderson Araújo

Eu gostaria de pensar a vida a partir de um filme que vi pela primeira vez há dois anos. Acabo de vê-lo pela décima vez. E quero vê-lo ainda mais umas outras dez vezes pelo menos. Trata-se do filme (*)"Na Natureza Selvagem". Guardo ainda a mensagem que a minha amiga Júnia me enviou há dois anos quando acabara de ver o filme: "Anderson, assista ao filme 'Na Natureza Selvagem'; forte e impactante".

Não quero contar a história do filme. Quero compartilhar o que aprendi com a história real do jovem Christopher McCandless ou "Alexander Supertramp".

Há muito tempo venho observando o comportamento das pessoas no que diz respeito ao dinheiro. Famílias se desfazem e se destroem quando o assunto é dinheiro: inventário, partilha, herança ou doença. No filme, o jovem queima o dinheiro. Ao fazê-lo parece deixar para trás todo peso, ressentimento e amarras porque "o dinheiro deixa as pessoas cautelosas". Suspeita-se de todos e de tudo porque podem querer o meu dinheiro ou porque não querem gastar o seu dinheiro. Por causa disso deixamos de viver a vida plenamente: deixamos de sentir a natureza e de vivenciar afetos. E quem sabe na velhice poderemos concluir que "gostávamos mais dos nossos dias quando não tínhamos um tostão".

O dinheiro não pesa somente o bolso, mas também o coração.

Como ratos vamos juntando, acumulando coisas. E as coisas vêm com os ressentimentos, as mágoas e os desafetos. Ser socialista? Pode ser mais saudável. Porém, mais importante do que isso seria aprender a viver com o que nos é necessário. Porque com o tempo nota-se que "quem tem mais do que precisa, precisa também de mais espaço". Muitos de nós temos a falsa ideia de que só seremos livres quando tivermos "coisas".

Sentir-se um outsider, um estranho ou forasteiro em nossa própria cidade ou cultura não é um crime. Registre atrás do seu diploma que "carreira é uma invenção do século XX". Cuidado com tudo o que lhe é imposto pelos meios de comunicação, pela moda, enfim, pelo mercado. Você não é obrigado a ter uma carreira fantástica. Você precisa apenas sentir o que é bom e importante para você, ainda que isso não corresponda às expectativas das pessoas a sua volta. Aprendi com "Na Natureza Selvagem" que "liberdade e natureza são boas demais para se recusar".

Aprendi também que precisamos "aprender a chamar as coisas pelo nome certo". Em outras palavras, é aprender "a dar nome aos bois". As coisas, sentimentos e ideias que nos assombram, continuarão a nos assombrarem enquanto não aprendermos a identificá-las. Algumas vezes será necessário ir à natureza selvagem para nomear essas coisas. Talvez isso signifique ir até à nossa própria natureza que tantas vezes se nos apresenta como selvagem. Pensando com Nietzsche, poderíamos questionar se nós domesticamos ou adestramos a nossa natureza. Adestrar um animal é bastante diferente de domesticá-lo.

A nossa força não está nos nossos músculos, em nossas posses ou no que temos. A minha força está no que penso a respeito de mim mesmo. A minha força depende do que faço com o que recebo do mundo e do modo com que contribuo com o mundo porque aprendi que "o importante não é ser forte, mas se sentir forte".

Independente de nossas crenças e até mesmo da falta de crenças, aprendi que precisamos aprender a perdoar. A vida não deve ser guiada apenas pela razão. Mas muitas vezes pelo que nos encanta, nos seduz e faz o nosso coração acelerar, porque "admitir que a vida é guiada apenas pela razão é destruir a possibilidade de viver".

Dentre outras citações presentes no filme, a de Lord Byron diz: "Não que ame menos o homem, mas amo mais a natureza". Decepcionamo-nos com pessoas. Mas aprendi com o jovem Christopher McCandless que as pessoas não deixam de ser importantes diante da grandiosidade da natureza, pois são até mesmo necessárias, e porque "a felicidade só é real quando é compartilhada".

Ao fim de 2010, agradeço a todas as pessoas que compartilharam comigo suas dores e alegrias, enfim, suas vivências. Obrigado a todos que apontaram o caminho para a natureza selvagem!

*Baseado na obra de Jon Krakauer, "Na Natureza Selvagem" conta a história verídica de Christopher McCandless. Veja abaixo o trailer do filme.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Pacto Social, um "Cálculo"

Por Anderson Araújo

Thomas Hobbes elaborou uma hipótese bastante plausível a respeito da natureza humana. Tal hipótese justificaria a necessidade de o ser humano viver em sociedade e, portanto, conviver pacificamente com os outros humanos.

No "Leviatã", um dos principais livros de Hobbes, ele caracteriza o ser humano inserido num hipotético "estado de natureza", no qual ainda não havia nem leis, nem propriedade privada. O homem era livre e, de certa maneira, podia fazer o que quisesse, pois não havia lei que restringisse o seu desejo. Mas sendo todos os seres humanos igualmente livres, num mundo sem leis, poderia haver tranquilidade, quer dizer, paz?

Não, pois se todos podem realizar os seus desejos sem impedimento algum, o homem vive constantemente sob o medo de perder o que é seu e até mesmo a própria vida. Neste sentido, Hobbes afirma que reina o medo e a insegurança no estado de natureza. Neste estado vive-se "uma guerra de todos contra todos", ou pelo menos a possibilidade constante desta guerra.

Por isso, os homens resolvem fazer um acordo ou pacto para garantir as suas conquistas e, portanto, a paz. Eles se associam e se organizam, formando o estado político. Neste estado há leis e um soberano que garante a paz e a ordem. Interessante notar que em Hobbes o homem não é naturalmente um animal político como pensou Aristóteles, mas um animal que age naturalmente em seu próprio benefício.

Para Hobbes a sociedade é resultado de um pacto para garantir a vida do homem. Hobbes diz que o homem faz um "cálculo", raciocina, utiliza a razão para garantir a sua vida e conclui, visando a conservação da vida, que o estado político é a melhor forma de vida, ainda que este estado limite as liberdades individuais.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. João Paulo Monteiro. São Paulo: Martins Fontes, 2008.





quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O "Caso Neymar" e o Problema da Autoridade

Por Anderson Araújo

Como você ensina a uma criança que ela precisa respeitar ou seguir algumas regras para não apenas viver em sociedade, mas conviver bem com os outros? Geralmente as crianças têm dificuldade para enxergar isso. Logo que a criança inicia o seu processo de socialização ela precisa aprender as regras e as normas do grupo: compartilhar ou não brinquedos, a proibição de mexer nas coisas das outras pessoas, cumprir horários etc.

Em minhas experiências com o ensino de ética para crianças e pré-adolescentes sempre utilizei a imagem do esporte, sobretudo a do futebol para falar das regras necessárias para nos comportarmos no convívio com o outro. Um jogo de futebol possui várias regras que, não respeitadas geram punições como cartões amarelo ou vermelho: "a regra é clara". Todo jogador deve saber como se portar em campo para não ser penalizado e pode, inclusive, ser expulso de campo dependendo da intensidade das faltas ou da gravidade da sua conduta em campo.

Além disso, todo time possui uma autoridade, o técnico ou comandante, também chamado por muitos atletas de "professor". Ele é responsável por treinar a equipe e por isso conhece bem os seus jogadores. A autoridade deve ser reconhecida e, portanto, respeitada. Este reconhecimento é condição necessária para que haja harmonia na equipe e sintonia na execução dos comandos do técnico.

Podemos transferir todas as características do técnico para um pai, um professor, um gestor, um líder ou um chefe, ou seja, para posições de autoridade. Toda autoridade sempre foi e é questionada, sobretudo pelo adolescente. O problema é que muitos pais ou autoridades terminam cedendo às vontades da criança ou do adolescente. O pai precisa escutar o filho, dialogar com o filho, para que a conduta não fique caracterizada como autoritária. Mas compreender uma criança ou um adolescente não significa que se deva acatar a opinião dele ou dela.

Um fato recente no futebol vem gerando muita discussão em todos os lugares. O jovem atacante do Santos, Neymar, insultou o técnico do time, Dorival Júnior, após ser proibido de bater um pênalti na partida contra o Atlético-GO (15/09/10). Diante disso, o técnico resolveu punir o jogador santista, deixando-o de fora da próxima partida e possivelmente de outras para que o "menino da Vila" refletisse sobre a sua conduta. Muitas pessoas discordaram dessa decisão do técnico, inclusive os dirigentes do clube, que decidiram em acordo com Dorival, pela demissão do comandante, campeão do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil com o time do Santos neste ano de 2010.

Desconhecemos questões internas do Clube. Mas a nossa análise dos fatos nos sugere que o técnico agiu como deveria agir uma autoridade. Na minha visão ele não agiu com autoritarismo. A atitude do técnico revelou uma preocupação com o jovem atleta e com o grupo dos jogadores. Neymar não reconheceu a autoridade do técnico, não seguiu as regras. O "menino" quis que a sua vontade fosse soberana. Enquanto o técnico sinalizou que se deve respeitar algumas decisões para o sucesso da equipe. A decisão da autoridade revela que mesmo o mais belo, o mais inteligente ou aquele que tem a melhor remuneração em relação aos outros integrantes do grupo deve seguir algumas regras.

É fato que Neymar é a estrela do time. Pode-se e deve-se respeitar os fatos e o talento dele; mas também deve-se preservar as normas de boa convivência. Futebol é exemplo para muita criança, sobretudo na vida daquelas que veem nele uma salvação em suas vidas. Futebol é inspiração e motivação. Futebol restaura a vida de muitos jovens. Futebol educa e mostra a importância da equipe e de um maestro. Futebol ensina disciplina, e é exemplo de que educar não é castigar, mas mostrar limites. Futebol ensina que autoridade é diferente de autoritarismo. Pois não é obediência inquestionável, mas direcionamento, orientação e referência.

Que o Neymar continue inspirando muitas crianças a acreditarem no esforço, na importância do treino e da disciplina, apesar de o recente episódio ter demonstrado que ele ainda não sabe lidar com autoridade. Termino este post com a seguinte problematização: o problema é o Neymar que se posiciona como soberano, ou as autoridades em torno dele que fazem dele um rei? É a criança que "manda no pai" ou é o pai que permite a soberania precoce do filho?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Crença no Hábito

Por Anderson Araújo

Para o filósofo David Hume, o nosso conhecimento do mundo se dá por meio de percepções. Ele as subdivide em impressões e ideias. As primeiras, as impressões, são as percepções atuais que temos das coisas e do mundo, são portanto, fortes e mais vivas. Enquanto as ideias são fracas e menos vivas porque geralmente são cópias das impressões.

Segundo o filósofo esta diferenciação é fácil para nós, pois facilmente distinguimos entre sentir e pensar. O modo como a impressão ocorre na mente é forte, e tem também um efeito peculiar. Uma impressão não é meramente pensada, mas acreditada. A força e a vivacidade significam o modo como aparece a percepção na mente e o efeito que causa à mente.

Exemplificando, posso ir ao museu e ver uma pintura de Picasso. Neste caso, enquanto vejo a pintura, tenho a impressão da pintura; trata-se de uma percepção forte e viva. Mas numa conversa com um amigo, na qual me lembro da minha visita ao museu e lhe descrevo a minha percepção da pintura, trata-se de uma ideia, uma percepção fraca e menos viva.

De acordo com Hume, todo o nosso conhecimento é baseado em nossas experiências. Por isso, ele vai dizer que determinadas conclusões que chegamos sobre o mundo e as coisas não são fundamentadas na razão, mas no hábito. O fato de vermos todos os dias uma relação entre A e B, por exemplo, faz com que toda vez que vemos A, lembremo-nos de B. Além disso, o nosso conhecimento é fundamentado em relações causais, ou melhor, na causalidade; que é a ideia segundo a qual todo efeito deve ter uma causa.

Nossas certezas sobre o futuro devem-se à nossa crença no hábito. Acostumamo-nos a ver que o Sol nasce todos os dias. Logo, concluímos que ele nascerá também amanhã e no futuro. Ou seja, este conhecimento é fundamentado numa crença que obtemos pela regularidade com que as nossas experiências se repetem, produzindo o hábito ou o costume. Desse modo, podemos concluir em breves palavras que para Hume a nossa mente é um feixe de percepções, pois todas as nossas ideias têm origem na impressão sensível; e que não estamos diante de uma conexão necessária na relação entre causa e efeito, mas diante de uma associação baseada na regularidade de eventos que ocorrem na experiência.

Estamos diante de uma explicação bastante plausível do funcionamento da mente humana que nos faz pensar sobre os motivos ou razões pelas quais adotamos determinadas crenças ou opiniões sobre nós mesmos e sobre o mundo. Fundamentamos nosso conhecimento somente na razão ou na experiência? O nosso conhecimento é racional ou é apenas uma crença em regularidades? Descobrir esta explicação da mente humana muda ou compromete o nosso modo de ver o mundo?

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

HUME, David. Tratado da Natureza Humana. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.


domingo, 29 de agosto de 2010

Orgulho e Narcisismo

Por Anderson Araújo

O filósofo escocês David Hume (1711-1776) defende o orgulho de si como uma paixão positiva. Para Hume, somente quando o “eu” é levado em conta que podemos sentir orgulho. O “eu” é objeto do orgulho, mas não pode ser a sua causa. Causas possíveis do orgulho seriam coragem e justiça, por exemplo; e também, beleza e força. Ele entende que essas causas são naturais ao homem. Então, aquilo que nos move, isto é, as nossas paixões, pertencem à nossa natureza.

O contrário do orgulho para Hume seria a humildade. Toda causa de orgulho nos causa prazer, e o contrário nos causa mal-estar. Para que produza orgulho ou humildade, é necessária uma relação estreita, própria, específica da causa conosco, quer dizer, com a nossa natureza. Assim, só vai sentir orgulho de sua saúde, alguém na velhice, pois na juventude é constante. Sinto orgulho daquilo que me é específico e que é até extraordinário. Simplificando, podemos dizer que o sentimento de orgulho é marcado pelo caráter extaordinário de alguma característica ou talento que possuímos.

Narcisismo e Amor-próprio

Na mitologia grega encontramos a história do jovem Narciso. Um jovem de beleza singular marcado por uma profecia: se um dia visse a si mesmo, morreria. O amor de Narciso por si mesmo é desmesurado. Narciso bastava-se a si mesmo. A sua auto-suficiência o impedia de se relacionar com os outros e justifica sua indiferença em relação às pessoas.

Denominamos então de narcisista a pessoa que só tem olhos para si mesma. O que não deixa de ser uma espécie de egoísmo. Caetano Veloso expressa numa canção o drama de Narciso: "Narciso acha feio o que não é espelho". O amor-próprio pode ser considerado uma forma de cuidado de si e de respeito consigo mesmo. No amor-próprio há equilíbrio no sentimento, o que permite o reconhecimento da alteridade na relação, ou seja, no amor-próprio pode-se falar de coexistência de "belezas", de "pessoas" e não em submissão dos outros à beleza de um indivíduo como a que ocorre no narcisismo.

Ler mais sobre orgulho e outras paixões em:

HUME, David. Tratado da Natureza Humana. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Autoridade X Autoritarismo

Por Anderson Araújo

As pessoas tendem a recorrer a instrumentos quando perdem o poder ou quando o seu poder não é reconhecido. A filósofa Hannah Arendt diz que a violência se distingue do poder pelo seu caráter instrumental, ou seja, pelo uso de instrumentos e de armas.

De certa forma o ser humano busca sempre o poder. Isso pode soar estranho aos ouvidos de muita gente, porque conhecemos através da História grandes tragédias e guerras pelo poder. Logo, é porque estamos acostumados com uma face negativa do poder que o julgamos como algo negativo, motivo de guerras, traições e violência em geral.

Digo que todos buscamos o poder no sentido definido pelo filósofo Michel Foucault, no sentido de que poder é apoio, consentimento, voto. Para tanto, só possui o poder aquele que tem o reconhecimento dos outros, enfim o respeito. Com o uso de instrumentos obtemos qualquer outra coisa, menos o poder legítimo. Com o uso de armas obtém-se uma obediência baseada no medo: o medo de ser punido, machucado ou até mesmo de perder a vida.

Desse modo podemos inserir o tema "autoridade e autoritarismo". Um pai é autoridade, um chefe e um professor também. Reconhecemos o lugar de cada um deles em nossas relações; merecem o nosso respeito e o nosso apoio. Mas este apoio é conquistado. Seja por um carisma ou pela "função" que desempenha nesta relação.

A relação entre pais e filhos merece mais a nossa atenção. Sobretudo porque se tem discutido muito nos últimos dias sobre a lei que proíbe palmadas. A relação entre pais e filhos é genuinamente uma relação de poder. Por isso, de certa maneira, o que está em jogo na indisciplina da criança é o fato de que a autoridade não foi respeitada. O diálogo é o meio legítimo para que se estabeleça o poder ou para que ele seja reconhecido.

Muitas pessoas têm preguiça de dialogar ou até nem sabem fazê-lo. Mas é o meio mais eficaz e humano de restabelecer o poder e de educar as crianças. Muitos pais também confundem a ideia de diálogo, pensando que dialogar é ceder sempre e acatar todas as decisões da criança. Diálogo não é isso. Diálogo é esclarecimento, respeito, escuta e momento oportuno para mostrar à criança que ela tem o poder de ser escutada, ainda que ela esteja errada ou equivocada sobre certas atitudes e decisões. Cabe aos pais mostrar o erro ou o equívoco da criança e de esclarecer inclusive que, acerca de alguns assuntos, não cabe ainda à criança a tomada de decisões.

Nós ouvimos uma autoridade e dialogamos com ela, expressando nossas opiniões. Numa relação autoritária, de autoritarismo, nós obedecemos porque temos medo: medo de que o outro grite conosco ou fale mais alto; medo de perder o emprego; medo de perder a "mesada" ou no caso da criança, de levar uma palmada. Um poder autoritário é um falso poder, pois é reconhecido pelo sentimento de medo ao qual uma pessoa é submetida. Enquanto na relação com uma autoridade o diálogo favorece a circulação do poder entre as partes, no autoritarismo não há reconhecimento do poder do outro, mas submissão de uma das partes.

"Eu não concordo com nenhuma palavra do que dizeis, mas eu defenderei até a morte o seu direito de dizê-la". (Voltaire)



sábado, 14 de agosto de 2010

"Meu Pequeno Atleticano"

Por Anderson Araújo

Em "Meu Pequeno Atleticano", Wilson Sideral narra o primeiro dia do seu "Pequeno" Igor no "Gigante da Pampulha", o velho Mineirão. É a final do campeonato mineiro. Sideral descreve o entusiasmo de uma criança que vai pela primeira vez a um estádio de futebol. Neste caso, trata-se de uma experiência transcendente, porque é no Mineirão, jogo do galo e, final do campeonato mineiro!

O pai do Igor conta a história do galo durante a final do campeonato mineiro. Por meio de uma conversa entre Pai e Filho, conhecemos as conquistas do Clube Atlético Mineiro e os ídolos da torcida: o famoso "tropeiro" do Mineirão, Reinaldo, Dadá Maravilha, Marques, Tardelli e outros.

Um livro para "Grandes" e "Pequenos" atleticanos!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dúvida

Por Anderson Araújo

René Descartes adotou o método da dúvida como estratégia de argumentação. Em "Meditações Metafísicas" ele fala sobre "as coisas que se podem colocar em dúvida". Ele lembra que normalmente nós recebemos falsas opiniões como verdadeiras. Com o seu método, pretende rejeitar todas as opiniões que forem falsas ou que lhe parecerem falsas. Isso demonstra um certo rigor em seu método.

O filósofo lembra que os sentidos nos enganam. Além disso, nós também nos enganamos quando dormimos, pois diversas vezes confundimos sonho e vigília. Em alguns sonhos achamos e sentimos que estamos acordados e que estamos de fato vivenciando determinadas situações. Logo, nós confundimos sonho e realidade.

Como podemos comprovar se estamos dormindo ou acordados? Nós nos alegramos quando sonhamos, sentimos dor, medo, prazer e tristeza como se estivéssemos acordados. Você não estaria sonhando neste momento em que lê este post de filosofia? Você pensa que está sentado em uma cadeira ou poltrona e que está diante do computador, mas também não poderia estar "na horizontal" sonhando com tudo isso?

Este pensamento pode parecer banal, simplório, ou louco. Mas tem um grande valor filosófico no sentido de nos alertar para a necessidade da dúvida em nossos raciocínios e argumentações. Somos passíveis de erro, sujeitos ao engano. Logo, devemos tomar cuidado com as opiniões que recebemos dos outros e com o nosso conhecimento do mundo em geral. A dúvida nos possibilita um conhecimento mais seguro das coisas e de nós mesmos.

Entretanto, o filósofo René Descartes não se contenta com a dúvida. Sua investigação pretende chegar ao que não se pode colocar em dúvida. É aí que ele chega no princípio "Cogito ergo sum", ou seja, "Penso, logo existo". "Eu estou pensando" é princípio e é puramente intelectual, razão pela qual não posso duvidar. "Eu estou pensando" é indubitável porque é evidente. Mesmo duvidando que estou pensando é indubitável que penso ao duvidar. Já "eu estou suando" não é indubitável porque é um dado da experiência que não é claro, nem evidente. Para Descartes é indubitável aquilo que é puramente intelectual.

Apesar disso, essa problematização gera um longo e interminável debate entre os filósofos. Um deles é se realmente podemos provar a existência daquele que pensa a partir da capacidade de pensar. E ainda, ao descobrir que penso, posso até provar a minha existência, mas como provar a existência das outras pessoas e das coisas ao meu redor?

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

DESCARTES, René. Meditações Metafísicas.





domingo, 1 de agosto de 2010

"Você se sente em casa no mundo?"

Por Anderson Araújo

“- Keegan: O senhor se sente em casa no mundo, então? - Broadbent: Claro. O senhor não? - Keegan: (do fundo de sua interioridade) Não. - Broadbent: (jovialmente) Experimente pílulas fosfóricas. Eu sempre as tomo quando sinto o cérebro cansado. Dar-lhe-ei o endereço na Rua Oxford.” (...). (Cena da peça de Bernard Shaw, John Bull’s Other Island)

Penso que o estranhamento do mundo, do mesmo e do outro é condição de possibilidade para o filosofar. Uma vez que, como Bornheim, acredito que o que leva o homem ao filosofar é um processo, a saber, um processo dialético. Dialético porque envolve três momentos. O primeiro é a afirmação dogmática do mundo; o segundo é a experiência da negatividade; e o terceiro, poderíamos dizer, a postura de assumir a filosofia como projeto de vida.

O primeiro momento pode ser até marcado por uma admiração, mas ingênua, e é oposto ao encantamento e ao espanto descritos acima, pois é um momento passivo, sem reflexão e sem questionamentos. Uma admiração do homem que não pensa nem a si mesmo e nem o mundo como problema, é a postura do homem adaptado a um mundo pronto e, portanto, seguro. No segundo, quando o homem vive a experiência negativa, quer dizer, o momento de estranhamento, a afirmação dogmática e segura do mundo dá lugar à dúvida e, assim, à insegurança. E aqui reside a possibilidade de se avançar em direção ao filosofar, caso este momento seja superado. A negação teria aqui um valor metodológico, é o caminho, não é o fim.

O terceiro momento do processo dialético que nos leva ao filosofar é o momento de assumir a filosofia como projeto de vida, isto é, o de abandonar as falsas seguranças, mesmo que para tal seja necessário assumir uma “moral provisória” como o fez Descartes. E aqui um detalhe importante que é a provisoriedade. Pois, Nietzsche já dissera que as nossas convicções são as nossas piores inimigas.

Logo, o filosofar é marcado pela provisoriedade, que traz consigo uma certa insegurança, pois o mundo não é e nunca será sempre o mesmo. O mundo se nos apresenta como mistério, assim como nós mesmos o somos. Todavia, o caráter misterioso do mundo e de nós mesmos não impede que a filosofia investigue e questione o mundo e a nós mesmos. Pois, a filosofia problematiza, mas também argumenta, formulando juízos, afirmativos e negativos.

O que posso conhecer? Ora, se aprendo com o processo dialético do filosofar que os fenômenos me são estranhos como o sou para mim, o que me resta poder conhecer? O fato de o mundo se me aparecer estranho não me impede de conhecê-lo e de explorá-lo. Acredito que tal fato apenas nos impede de sermos pretensiosos quanto às nossas afirmações acerca do mundo.

A partir de Descartes, o saber é fundamentado no “cogito, ergo sum”. E para alcançá-lo tem-se um método seguro, que nos permite chegar, portanto, a um conhecimento seguro. Temos aqui uma ideia de conhecimento atrelada à ideia de verdade infalível. Podemos duvidar sobre a existência das coisas, mas não podemos duvidar que estamos pensando sobre a existência das coisas e o duvidar, que é pensar, prova a existência de um ser pensante. O pensamento teria, pois, uma grande importância para o conhecimento.

Nietzsche e outros filósofos questionaram a postura cartesiana acerca do conhecimento. Temos em Descartes uma pretensão absoluta de um conhecimento infalível acerca da realidade. É a ideia de um sujeito que pode ser caricaturizado pela imagem tradicional e popular do cientista, a do “homem de branco e de óculos”, capaz de desnudar a realidade depois de um determinado tempo de pesquisa, pois pode desvendar os segredos dos seus objetos de pesquisa, através da observação e da razão.

Enxergar o mundo e a nós mesmos como objetos seguramente decifráveis, nos levaria a uma visão dogmática e fragmentada da realidade. A minha postura sobre o conhecimento é, em princípio, “nietzschiana”, pois é orientada pela ideia de um saber que se constrói perspectivo. Portanto, há perspectivas porque há limites no meu conhecimento. Não posso conhecer o todo pela parte, e Kant já demarcara que não posso conhecer todas as coisas, pois há limites para a razão.

À questão “o que posso conhecer?”, posso responder como Kant: posso conhecer fenômenos, e como Nietzsche: perspectivamente. Há limites para a razão e para a consciência. A existência de tais limites não deve paralisar a nossa investigação filosófica. Pelo contrário, ela deve nos orientar para uma postura despretensiosa que se perceba limitada e atenta à pretensão de que se pode conhecer a totalidade das coisas ou dos seres. Um conhecimento seguro é, pois, um conhecimento que se perceba limitado e sempre a caminho.

Portanto, a filosofia nos ensina que, primeiramente, devemos ter uma capacidade de estranhar o mundo. Aprendemos também que o estranhamento, a inquietação, podem se manifestar de diversas formas. Resta dizer que a experiência negativa pode ser passiva e ativa. O homem que tão somente “não se sente em casa no mundo”, necessariamente não está filosofando. Ele pode estar mergulhado numa espécie de pessimismo doloroso que o impede de avançar em direção ao filosofar. Podemos nos sentir fora de casa no mundo em diversos momentos, mas eles devem ser superados, sobretudo pela via argumentativa e discursiva, o que seria uma experiência negativa ativa. É verdade que inseridos no processo do filosofar veremos o mundo com outros olhos, mas não significa que estaremos protegidos de assumirmos outros olhares dogmáticos em nossa vida.

Sobre o processo dialético do Filosofar: BORNHEIM, Gerd. Introdução ao Filosofar. Porto Alegre: Globo, 1978.


sexta-feira, 23 de julho de 2010

O Problema da Justiça

Por Anderson Araújo

O diálogo sobre a justiça acontece entre Céfalo (um ancião), Polemarco (seu filho) e um dos filósofos mais importantes para o desenvolvimento da filosofia: Sócrates. No decorrer do diálogo chegam outros personagens, mas refletiremos apenas sobre o trecho inicial do livro I de A República de Platão.

Sócrates é convidado para ir à casa de Céfalo. Todos gostavam muito de conversar com o filósofo. Pois, ele utilizava um método interessante para ensinar. O método é a Dialética. O que é isso, dialética? Examinemos o diálogo para compreendermos esse termo e o problema da justiça.

Céfalo afirma que a Justiça consiste em falar a verdade e devolver ao outro o que lhe pertence. Sócrates aponta um problema na definição de Céfalo sobre a justiça. Qual é o problema? Sócrates exemplifica: Imaginemos que José receba uma arma do seu amigo (Luiz) para guardar. Certo dia, Luiz bate à porta da casa de José e lhe pede a arma que anteriormente pedira que guardasse. No entanto, José percebe que Luiz está um pouco alterado, provavelmente, com perturbações mentais, pensou José. O Luiz deve ter batido a cabeça em algum lugar ou deve ter tomado alguma bebida muito forte. (Estes nomes, Luiz e José não fazem parte do texto original). Sócrates se utiliza desse exemplo a fim de mostrar para o seu interlocutor, Céfalo, que, se a Justiça consistir em falar sempre a verdade e dar a cada um o que lhe pertence, seria então justo que o José entregasse a arma ao Luiz nessas condições. Mas ninguém concordaria em dar a arma para uma pessoa perturbada.

Céfalo diz que de fato errou em sua definição de Justiça. Pois, a Justiça consiste em falar a verdade e devolver a cada um o que lhe pertence, mas de acordo com as circunstâncias, ou seja, só se pode falar a verdade e entregar a alguém o que lhe pertence se este não estiver perturbado das ideias. Céfalo sai de cena e deixa o seu filho Polemarco conversando com Sócrates. É certo que não desejamos o mal aos nossos amigos, mas, e no caso de nossos inimigos, pergunta Sócrates a Polemarco, teremos que lhes devolver o que lhes devemos?

Polemarco responde que sim. Porque uma pessoa só deve ao seu inimigo o mal. Sócrates percebe também um problema na fala de Polemarco e lhe pergunta: “O que deve fazer um médico?” Polemarco responde: “dar remédios para os doentes”. Sócrates pergunta a Polemarco: “A Justiça consiste em fazer bem aos amigos e mal aos inimigos?” Polemarco responde que sim.

Sócrates lembra que a medicina não foi criada para fazer o mal ao doente, pelo contrário, o médico só deve fazer o bem. Com isso, Sócrates está empregando o seu método que é a Dialética. É uma espécie de jogo que acontece na maioria dos diálogos Socráticos. Neste diálogo, sobre a Justiça, Sócrates percebe que Céfalo e Polemarco dão falsas definições de Justiça. Pois, tanto Céfalo quanto Polemarco não apresentam uma definição universal de Justiça. Eles apresentam definições particulares. As definições que interessam ao filósofo são as definições universais, quer dizer, aquelas que podem ser usadas em todas as situações. Neste caso, a definição de Justiça, assim como a definição de medicina exige uma aplicação imparcial, logo, o "homem mau" merece cuidados médicos e tem direito de ser assistido pela Justiça.

Para Sócrates, a definição de Justiça deve servir para todos os casos. As definições não podem se contradizer. Sócrates nos ensina com a filosofia que não podemos dizer que algo é bom e mau ao mesmo tempo. A definição de Justiça deve ser útil e boa para todos os casos. A Dialética, este método que a filosofia sempre usou, nos ensina a usar os conceitos de uma forma clara e precisa, para que todos compreendam e não sejam enganados por argumentos falsos.

Sócrates, ao empregar a Dialética, dizia que fazia um trabalho de parteira. Pois, para ele, todas as pessoas estão “grávidas”, grávidas de ideias. E para fazê-las nascerem é necessário o trabalho de um filósofo. Esse método dialético é chamado de maiêutica, que é fazer o outro descobrir por si mesmo a verdade que parecia desconhecer. É a arte de fazer o outro “dar à luz às suas idéias”.

Referência Bibliográfica

PLATÃO. A República. Livro I. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2000.


sexta-feira, 16 de julho de 2010

Educação, uma Emancipação do Olhar

Por Anderson Araújo

O filósofo Platão nos apresenta em seu livro República, a Imagem da Caverna, mais conhecida como Mito da Caverna. Na Imagem da Caverna, temos uma situação onde se encontram homens presos por correntes, desde crianças, no interior de uma caverna. Eles estão presos de tal modo que não podem mover o pescoço, logo, são obrigados a olhar para frente eternamente. E o que eles vêem, eternamente? Sombras de objetos projetadas por um fogo na parede da caverna. Acontece que um deles é libertado e tem a oportunidade de olhar o mundo a partir de um outro lugar, a saber, fora da caverna. Um prisioneiro é solto e pode conhecer os objetos que eram projetados pelo fogo na parede da caverna, e ele pode ainda mais, sair da caverna e ver o sol.

Ora, o mesmo se passa conosco, afirma Sócrates, a respeito da nossa condição humana. Dizemos condição humana, porque somos homens que vivemos no mundo, e, porque vivemos no mundo, relacionamo-nos com homens no mundo. E, imersos em relacionamentos humanos, no mundo, somos sujeitos a diversas posições a respeito de nós mesmos e do mundo. E essas posições nem sempre são fruto de reflexões, ou de imagens críticas de nós mesmos e do mundo. Muitas vezes, são imagens distorcidas, tomadas como “a verdade”, “o sentido”, “o real”, caracterizadas por serem eleitas na ausência de reflexão.

Assim, não cabe à educação propor a visão de uma verdade ou do real, mas condições de possibilidades que nos permitem ser facilitadores da visão dos diversos sentidos de mundo, diria o educador Paulo Freire. Platão e a Imagem da Caverna nos orientam nesta posição. Pois, estamos falando de uma educação do olhar. Na língua grega há diversos modos do verbo “ver” que se ligam a modos de conhecimento. Assim, o verbo “ver” é utilizado muitas vezes pelos gregos para se referirem às muitas formas de conhecimento.

Retornemos, pois, à caverna. Os prisioneiros eram obrigados a ver sempre as mesmas coisas, tinham o olhar orientado para uma única direção. Eles poderiam refletir sobre o que viam? Sim. No entanto, somente sobre o que lhes era apresentado. Não podiam caminhar e buscar uma outra imagem, não tinham um olhar emancipado. Podiam, talvez, fechar os olhos. A liberdade dos prisioneiros se resumiria, talvez, nesta possibilidade de fechar os olhos. Mas, também, nem não sabiam ou nem quereriam, uma vez que não tinham outras possibilidades de “passar o tempo” e de se divertirem.

Mas, um dos prisioneiros tem a oportunidade de ver “mais”, de conhecer melhor o mundo. E, aqui, apontamos para uma condição de possibilidade de uma educação que emancipa o olhar. É uma educação que oportuniza meios, ou momentos, para que o educando ou o aluno, possa ver “mais”. Não é a idéia de ver muito mais, como adição na matemática. Mas, que oportuniza pelo menos mais de uma visão acerca de si mesmo e acerca do mundo.

A educação assumiria, então, as posições de mãe ou de pai, porque usamos o termo emancipação. No entanto, ela é um pai-mãe “ideal”. É o que o professor, o facilitador ou o educador faz com o seu aluno. A educação seria justamente o contrário de um paternalismo. Ela deve emancipar o olhar do aluno. E o desafio para o professor “facilitador” é o de mostrar para o aluno que ele é sujeito, portanto, homem dotado de uma capacidade reflexiva que o permite conhecer sentidos do mundo, e que o torna capaz de escolher ou não, alguns sentidos do mundo. Educação seria, talvez, mostrar, sutilmente, a possibilidade de uma vida sem os pais, logo, a tarefa do educador é, neste sentido, emancipar o olhar do aluno.

Assim, pensamos que a educação teria, de um lado, o privilégio de poder corrigir o olhar das pessoas. E, por outro lado, o professor teria que ser um polýtropon, palavra grega que significa “aquele que se vira de muitos modos”. O professor teria que, primeiramente, estar, não emancipado, mas no processo de emancipação do olhar. Pois, sabemos que o conhecimento se dá num processo, e não podemos, se estivermos numa atitude reflexiva e, portanto, filosófica, apontar para uma posição totalmente emancipada, segura de si, dogmática.

O professor teria que, então, antes de cuidar para que aconteça a emancipação dos outros, estar, ele mesmo, no processo emancipatório. Ele deve cuidar-se de si, ocupar-se de si. Só então ele poderá ocupar-se dos outros. Assim, a educação assume também um caráter terapêutico, mas despretensioso. Porque não podemos pensar na relação professor-aluno como uma relação de mestre e discípulo, mas numa relação que é construída entre sujeitos. Enquanto possibilito que o outro veja outros sentidos de mundo, também conheço, através dele, outros sentidos de mundo, e, juntos, construímos outros sentidos de mundo.

Assim, uma educação que liberta, e que por isso mesmo é humana, é aquela que se preocupa com o olhar das pessoas. E, para que ela ocorra, faz-se necessário que o professor seja um polýtropon despretensioso, que ele não tenha a intenção de agradar ou de “bajular” o olhar do aluno, mas que se vire de muitos modos para libertar o olhar do aluno de uma única imagem, ou melhor, que ele aponte pelo menos possibilidades que permitam ao aluno escolher se deseja se libertar ou não, de uma imagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORNHEIM, Gerd. Introdução ao Filosofar. Porto Alegre: Globo, 1978. p.47-80.

PLATÃO, A República. Trad. Carlos Alberto Nunes. 3ª ed. Belém: EDUFPA, 2000. p.319-357.



sábado, 10 de julho de 2010

Alienação e Mediocridade

Por Anderson Araújo

Considerando-se que as ideologias são doutrinas de ideias; podem ser utilizadas com o sentido de educar, sensibilizar, formar, convencer e até mesmo de manipular o ser humano. Pode-se identificar cada sentido dependendo da pessoa que faz uso da ideologia e do contexto no qual é utilizada.

Desse modo, as músicas transmitem ideologias, intencionalmente ou não, mas transmitem. Assim como as propagandas, as religiões e os discursos políticos. As propagandas tentam convencer as pessoas a comprarem seus produtos. Para isso, associam imagens de beleza, saúde e bem-estar ao produto que desejam vender. Um político sempre transmite uma ideologia. Mas o que precisamos identificar é se ele a transmite em um sentido positivo ou negativo. Ou seja, se o objetivo é auxiliar as pessoas, libertar as pessoas das condições miseráveis e sub-humanas nas quais vivem, a ideologia é positiva. E se o objetivo for simplesmente ganhar votos, apoio e auto beneficiar-se, estamos diante de uma ideologia no sentido negativo.

Em geral, o que a ideologia em seu sentido negativo faz é alienar as pessoas. As pessoas tornam-se alienadas, quer dizer, desconhecem os reais motivos pelos quais agem, consomem compulsivamente e escolhem determinados políticos. Neste caso, ainda há muitas pessoas que escolhem um representante porque corresponde a um padrão de beleza ou porque está ligado a um time de futebol, por exemplo. Claro que nada impede que um jogador de futebol tenha características consideradas importantes para um representante do povo. Mas, normalmente, as pessoas desconhecem seus projetos.

Pessoas alienadas geralmente são medíocres. Por quê? Porque agem iguais a todo mundo. Compram as mesmas roupas de marcas famosas, não suportam não TER o celular que o seu grupo de convivência possui, nem o fato de andar com um carro usado. Alienação e mediocridade andam de mãos dadas. Isso porque falta opinião própria, estudo, estilo e perfil à pessoa alienada. Formar-se é algo difícil, porque exige esforço, cultivo de si (cultura), assim como toda virtude. A virtude não é apenas um bom hábito, mas é um comportamento marcado pela originalidade e motivações próprias para conhecer-se e conhecer o mundo e as coisas; talvez para se enganar menos e ser menos enganado, menos alienado portanto, e mais autêntico.

É triste e cansativo ver e ouvir as pessoas repetirem chavões de programas de humor ou de novelas – fica todo mundo igual. Mas é encantador ser surpreendido por questões diferentes e problematizadoras sobre o mundo. A autenticidade exige também moderação, equilíbrio, mas não a “média”, ou seja, não é ser “mais ou menos”. Posicionar-se contra a mediocridade e possuir um perfil original é desafiador. Porque para isso deve-se ser diferente, mas também respeitar as diferenças; e conviver harmonicamente com a sociedade, mas sem perder-se, sem ser comum.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Virtudes e o Mito do Sucesso do Mau Aluno

Por Anderson Araújo

O filósofo Aristóteles nos ensina que a virtude, assim como os vícios, são hábitos, coisas que fazemos com frequência. Quando os hábitos são bons, temos a virtude. O contrário, hábitos ruins, produzem vícios. Além disso, é importante notar que toda virtude é sempre um equilíbrio entre o excesso e a falta.

Exemplificando, podemos imaginar a vida de uma pessoa quanto à prática de atividade física. Aquela pessoa que treina diariamente um esporte, ou que pratica uma caminhada diária de 1h, pode ser considerada virtuosa. A prática deve ser regular para ser classificada como virtude, mas não pode ser executada em excesso.

Um jovem é virtuoso quando se dedica quatro horas diárias ao estudo e, além disso, faz atividade física, conversa com os amigos e convive com a família. No entanto, se o jovem passa a se dedicar 10 horas diárias ao estudo e, com isso, deixa de se relacionar com os amigos e com a família, e não faz atividade física, fica claro que ele está se excedendo em sua ação, logo, estudar neste caso não deve ser considerada uma virtude.

Toda virtude é sempre um equilíbrio e também esforço. Poucas pessoas têm talentos naturais para fazer determinadas coisas. Os atletas só se realizam e alcançam medalhas devido ao tempo que se dedicam aos treinos. E mesmo quando alcançam pódios, continuam a treinar. Porque sabem que sem o treino, sem o esforço, não alcançarão a vitória.

Existe o mito do sucesso do mau aluno, tema já apresentado pelo consultor de carreiras Max Geringer no seu programa diário na rádio CBN. As pessoas divulgam a ideia de que mesmo o mau aluno pode ter sucesso na sua carreira. O que é verdade, embora não se fale que ele terá mais dificuldade do que o bom aluno.

Quem é o mau aluno? É aquele que não tem compromisso, que não respeita nem os pais, nem os professores (autoridades). Além de ter dificuldade para cumprir compromissos, como chegar no horário, o mau aluno enfrentará dificuldades de se relacionar com os seus superiores (chefes, gerentes), pois não estava habituado a ver os pais e professores como autoridades.

Se toda virtude é sempre um esforço, aquele que se esforça terá mais facilidade de se adaptar a regras e horários, e portanto, de se relacionar melhor no seu ambiente de estudo e de trabalho.

No próximo texto vou refletir sobre virtude e mediocridade.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

"Tenho, logo existo?"

Por Anderson Araújo

Vivemos numa sociedade marcada pela técnica de produção, em que o mais importante é produzir e fabricar muito, pois é uma sociedade consumista. Não há o espaço para a contemplação e para o pensar, já que o indivíduo é treinado para produzir. Basta que siga modelos e fórmulas para realizar o seu trabalho.

Se o objetivo é, além de produzir, fazer com que os outros consumam, estamos numa sociedade que coloca o “ter” no lugar do “ser”. Esta sociedade privilegia a obtenção de coisas, roupas, celulares e carros de última geração para alcançar uma sensação de realização e de status. É a lógica que diz “tenho, logo existo”. Os meios de comunicação divulgam a ideia de que o indivíduo que existe é aquele que “se permite fazer compras”.

Nessa sociedade, imediatista, que exige soluções rápidas para os seus problemas, a filosofia é vista com preconceitos, se o importante é ter, não há espaço para refletir sobre as ações humanas. Os problemas de falta de sentido, carência afetiva, e de falta de autoconhecimento são solucionados com uma ida ao shopping, ou com o uso de bebidas alcoólicas.

A contemplação pode ser considerada como o primeiro passo para a investigação filosófica. Pois através da contemplação que o homem percebe que o mundo e as coisas não são como ele pensa que são. Ao contemplar o mundo, o habitual e o comum se tornam estranhos para o homem. E ao estranhar o mundo, o homem começa a fazer perguntas e questionamentos sobre o mundo.

Sem a contemplação, o homem não pode perceber o quanto existem coisas, lugares e ideias que possam ser investigadas. A contemplação produz dúvidas e questões naquele que contempla, o que é positivo para a investigação filosófica.

Essa prática não é muito empregada em nossa sociedade, porque as pessoas têm pressa para obter coisas e conhecer as coisas. A leitura de livros é substituída pela TV e por games, os passeios e caminhadas em parques e praças que propiciam o espaço para contemplação são substituídos por passeios em shoppings. Logo, se a contemplação exige tempo, reflexão e análise, ela é pouco valorizada em nossa sociedade imediatista e consumista.

Dessa maneira fica mais evidente a necessidade da filosofia e o seu valor. Aquele que a estuda pode perceber que não se trata de um passatempo, mas de conhecimento das possibilidades para alargar a sua mente e para torná-lo menos vulnerável à sociedade de consumo. A filosofia destaca a importância de “ser”, o que só é possível através do conhecimento de si mesmo e do mundo (contemplação).

Portanto, a filosofia sempre terá o seu valor. Talvez faltem oportunidades para que as pessoas conheçam melhor a filosofia. Mas os meios de comunicação não dão este espaço, pois as pessoas, ao ampliarem a sua visão de mundo através da filosofia, compreenderiam que não é importante consumir para “ser” alguém.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os Cinco Sentidos e o nosso Conhecimento do Mundo

Por Anderson Araújo
Nas aulas sobre ilusão e engano tenho problematizado sobre os cinco sentidos. O que está em jogo é mostrar que nós falhamos e nos enganamos facilmente. Em outras palavras, é necessário colocar em dúvida o nosso conhecimento, sobretudo o que nos vem pelos sentidos, quando pensamos sobre o que pode ser a verdade em Filosofia.

Os nossos sentidos (olfato, paladar, visão, audição e tato) são meios através dos quais nos relacionamos com o mundo e conhecemos o mundo; são pontes que nos dão acesso às coisas. Mas este acesso nem sempre é confiável. Confundimos odores, sabores, imagens, sons e superfícies. Nenhum dos nossos cinco sentidos é perfeito. E com a idade, alguns deles falham ainda mais.

Surpreendemo-nos quando conhecemos alguém de audição mais sensível, por exemplo. Sempre cito meu amigo Ricardo que sem poder enxergar "com os olhos" desde os 7 anos de idade, esperava seu ônibus num ponto onde passavam três linhas diferentes. O Ricardo sabia qual era seu ônibus pelo barulho do motor. Às vezes, engana-se mais quem pode usar os cinco sentidos porque os utiliza mal.

No cotidiano, vivenciamos pouco a experiência de sentir e conhecer o mundo com os cinco sentidos plenamente. Assistimos TV enquanto acessamos nossos e-mails e durante as refeições. (As duas ou as três coisas juntas). Saboreamos pouco os alimentos. Ouvimos mal as pessoas.

Dizem que o sentido mais histórico é o olfato. E acredito nisso. Há perfumes que nos levam a vários lugares da nossa vida; ao cheiro de uma árvore da escola primária, por exemplo. O fato é que todos os sentidos nos enganam e têm sua marca de longa duração mas também de evanescência. A visão parece ser o sentido que mais nos engana e dispersa, nos dá foco, mas também nos faz perdê-lo facilmente.

O tato poderia aprender essa habilidade da visão: a de soltar as coisas facilmente. Nós nos apegamos às coisas muito fácil e até a pessoas. Nossas mãos prendem as coisas, dinheiro, posses, e tudo vai ficando mais pesado e mais suspeito. Falta ao tato o desprendimento que possui a nossa visão. Seríamos mais leves se nossas mãos se desprendessem das coisas como os nossos olhos, não sofreríamos tanto por apego.

Mas a atitude de suspeita é positiva em nossa investigação do conhecimento. Suspeitar do modo com o qual conhecemos o mundo e dele recebemos conhecimento nos ajuda a nos enganarmos menos, a nos iludirmos menos. E diante da imperfeição dos cinco sentidos, precisamos depurar, tornar mais sensível cada um dos nossos sentidos. Um exemplo simples, mas que dá medo em muita gente: comer em silêncio, sozinho, mastigando os alimentos devagar. Outra experiência realmente excêntrica: tomar banho no escuro, assistir TV sem som. São experiências que nos ajudam a pensar sobre o modo com que conhecemos o mundo e a explorar melhor os nossos sentidos.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A sua Filosofia e a Filosofia do seu time


Por Anderson Araújo

No último domingo, 06/06, O Atlético-MG perdeu pela primeira vez para o Ceará em Belo Horizonte em sua última partida no “velho Mineirão”. Não é a primeira vez que, após o jogo do galo, escuto o treinador Vanderlei Luxemburgo falar sobre a “filosofia do time”, ou sobre a “filosofia do elenco”. É interessante que muitas pessoas gostam de usar a expressão “minha filosofia de vida” para tratar de crenças e posturas pessoais acerca de algum assunto.

É comum entre os filósofos certo medo de se posicionar diante do que seja “Filosofia”. Algumas vezes isso representa, positivamente, rigor e cuidado com a tradição filosófica, ou, negativamente, uma forma de se evitar o debate.

Voltando à fala do respeitado e admirado treinador Vanderlei Luxemburgo, quero me posicionar acerca do que pode significar a expressão “filosofia do grupo” ou “minha filosofia de vida”.

Contextualizando, após a 7ª rodada do Campeonato Brasileiro, o Atlético-MG, ao perder para o Ceará, permaneceu entre os quatro últimos times do campeonato. É cedo para se falar em rebaixamento, mas isso não deixa de preocupar o torcedor. Da torcida pude perceber que a atuação dos jogadores do atlético realmente nos incomoda. Ouvi diversas vezes alguém dizer “está pior do que eu imaginava”. (Não vou ao estádio para vaiar o meu time, não faz parte da “minha filosofia de vida”). A torcida vaiou e protestou.

Ao final da partida, em sua entrevista aos jornalistas, Vanderlei Luxemburgo utilizou a palavra “filosofia” três vezes durante quase dez minutos de entrevista sobre a atuação da equipe. Ressaltou que o clube paga os salários em dia e tem o melhor centro de treinamento do Brasil, declarou ainda que quer mudar o PERFIL dos jogadores. Disse também que não é “sem vergonha”, porque trabalha muito e que “está com vergonha momentaneamente porque o resultado é ruim”.

O Luxemburgo disse, dentre outras coisas, que quer jogadores comprometidos com o grupo, com a “filosofia do grupo”. Para ele, o elenco que atuou contra o Ceará não teve comprometimento com a “filosofia do grupo”.

Entendo que Filosofia, e sobretudo no sentido citado pelo Vanderlei, é uma atitude diante da vida, dos acontecimentos, enfim, diante do conhecimento. Atitude! Qual é a atitude que os jogadores devem ter para jogar no galo? Comprometimento; trabalho, capacidade de reação; memória da grandeza do clube e, vergonha das más atuações! Além disso, com o intuito de definir a "filosofia do galo", deve-se pensar no perfil do vitorioso Vanderlei Luxemburgo, que pode ser sintetizado pela frase que ele não se cansa de repetir: “Com medo de perder, você perde a vontade de ganhar”. Portanto, jogadores do atlético não podem ter medo de perder, mas muita vontade de ganhar.

Neste sentido, cada pessoa ou time possui uma filosofia, quer dizer, uma atitude diante da vida, do conhecimento e dos acontecimentos. A sua “filosofia de vida” ou a “filosofia do seu grupo” revela o seu perfil ou o perfil do seu grupo; em outras palavras, revelam as suas crenças e seus conhecimentos que podem fazer do seu time um perdedor ou ganhador.

Confira a entrevista do técnico Vanderlei Luxemburgo em www.tvgalo.com.br


quarta-feira, 2 de junho de 2010

Mudar dói, não mudar dói muito

Por Anderson Araújo

É do filósofo grego, Heráclito de Éfeso, a célebre frase: "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, nós somos e não somos". Assim como as águas do rio mudam constantemente, nós também sofremos constantes transformações e mudanças. É a ideia de que todas as coisas estão mudando sempre, nunca permanecem as mesmas. Mesmo sutis, estes movimentos ou transformações, ocorrem frequentemente.

A ciência e a física demonstram por meio de experimentos que a vida e todas as coisas estão sujeitas ao devir, ou seja, às mudanças. Geralmente as mudanças não são confortáveis. Mudar de casa, de escola e até mesmo de ideias sobre si mesmo e sobre o mundo pode trazer muita insegurança, mas pode trazer também amadurecimento.

Mudanças exigem adaptações, novos saberes e alargamento dos nossos limites, ou seja, é uma oportunidade para driblar ou superar alguma dificuldade. Cada pessoa possui uma identidade, ou caráter (ideia de algo impresso que não muda), por isso dizemos que temos nossos valores e princípios. Mas sempre existe um espaço para transformações, sobretudo daquilo que nos impede de avançarmos em nossos projetos.

Gabriel, "O pensador", tem uma frase que diz: "Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo". Algumas pessoas reclamam da falta de um bom emprego; outras dizem que não são inteligentes, mas não trabalham para mudar, pelo contrário, lutam para continuar as mesmas. É triste perceber que estas pessoas paralisam suas vidas, devido ao medo das mudanças, ou ao comodismo dos lugares já conhecidos.

Neste sentido, penso que não há como fugir das mudanças, pois são próprias de tudo que vive e mesmo do que é inorgânico. Às vezes adiamos algumas necessárias transformações. Mas, como canta o compositor Oswaldo Montenegro: "hoje sei que mudar dói, mas não mudar dói muito".

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Encantamento, Espanto e Admiração


Por Anderson Araújo

Os filósofos começaram a filosofar devido a uma atitude de espanto, estranhamento e encantamento, nos diz o filósofo Aristóteles. Estas palavras são possíveis variações obtidas pela tradução do verbo grego "thaumatzein". Em outras palavras, podemos dizer que o que move o filósofo é esta atitude de espanto diante do mundo e das coisas.

O mundo se apresenta enigmático, misterioso e estranho aos olhos de um filósofo. Por isso, filosofar é uma atitude de questionamento e de investigação das coisas comuns e experimentadas como "óbvias" pela maioria das pessoas. É verdade que precisamos nos acostumar com algumas coisas para agirmos no cotidiano. Certos automatismos garantem a nossa boa sobrevivência. Mas também impedem a reflexão e nos deixam mais robóticos e menos humanos.

Sempre digo que há coisas, imagens e aspectos diferentes, seja das paisagens ou das pessoas, no caminho que fazemos quando saímos de casa ou quando para ela voltamos. Uma postura filosófica é também vigilante, sobretudo contra o olhar viciado. A vida fica sem graça quando deixamos de ver coisas diferentes no mundo. O óbvio rouba o brilho dos nossos olhos.

Os fenômenos da natureza nos causam espanto e admiração, o pôr-do-sol por exemplo. O ciclo da vida e o comportamento humano também. A capacidade humana de fazer o mal nos assombra, mas a sua capacidade de doar-se e de cuidar da vida nos encanta. Estas atitudes também são características da ciência. Por isso a ciência sempre avança por meio de novas pesquisas sobre um objeto já inúmeras vezes estudado.

Experimentar o mundo com outros olhos é um modo de resignificá-lo, dar novos sentidos às coisas. Isso nos torna mais criativos, mas artistas, enfim, mais humanos. Além disso, penso que também é uma atitude nobre. O contrário, uma vida acostumada e confortável no mundo, é quase sempre triste, sem sabor, sem encantamento, por isso pobre de espírito.

(Imagem: "A noite estrelada" de Vincent Van Gogh, 1889)





terça-feira, 25 de maio de 2010

Na Natureza Selvagem

Por Anderson Araújo


O melhor filme que já vi até hoje. Já vi quase 10 vezes. O filme foi indicado pela amiga Júnia há 2 anos quando ainda estava em cartaz no cinema.

Você tem vontade de realizar grandes viagens? Ou de tomar importantes e necessárias decisões na sua vida? Falta alegria ou sobra alegria em sua vida? Em Na Natureza Selvagem, não só fazemos uma viagem ao Alaska com o jovem Christopher McCandless, ou "Alex", mas uma viagem em nós mesmos.

Medos, sonhos, angústias, família e... a busca pela felicidade! Libertador! Arrebatador! É difícil continuar o mesmo depois deste filme! Em breve, depois de vê-lo pela décima vez, postarei um texto aqui. Confira o trailer!

sábado, 22 de maio de 2010

O Drama Humano da Liberdade

Por Anderson Araújo

Poema de José Paulo Paes

"a torneira seca
(mas pior: a falta de sede)

a luz apagada
(mas pior: o gosto do escuro)

a porta fechada
(mas pior: a chave por dentro)"

O José Paulo conseguiu exprimir dramaticamente o problema da liberdade nos versos acima. O poema demonstra como somos livres mesmo em situações que optamos em não escolher, ou mesmo quando a escolha é negativa. Em outra situações, uma porta fechada seria condição de desespero e de tristeza. Mas neste caso, não se pretende abrir a porta, pois sabe-se que a chave está por dentro.

Este poema me lembrou a frase de uma pessoa de personalidade bastante excêntrica: "Ficar deprimido um dia é normal. Todo mundo tem direito. Mas ficar deprimido mais de 24h é brega".

É o drama humano da liberdade!

Penso que uma atitude afirmativa contra a letargia ficaria assim: "Tenho muita sede: que bom, há muita água! Muito escuro aqui dentro: mas que sol fantástico lá fora! Ah, a porta está fechada: mas a chave está aqui! Uau, vou vazar!"

Letargia: sonolência mórbida profunda, desânimo, preguiça.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Tio Zé e a Filosofia

Por Anderson Araújo

Há alguns dias conheci o tio Zé, lá de Goiás, irmão da vovó Edite. Homem matuto e de muita sensibilidade, acostumado à vida no campo, gente que lê os sinais da natureza melhor do que meteorologista. Eu sempre soube da fama do tio Zé de "contador de causos".

Naquela manhã de sábado estava disposto a ouvir suas histórias e causos. Primeiro, ele contou que lá em Goiás, na sua fazenda, dá tanto peixe que se pega com as mãos na "beirada" da lagoa. E dentre outros causos, ele também contou que os celulares fazem parte mesmo da vida dos habitantes na sua cidade em Goiás. Certa vez, encontrou um cachorrinho mancando, quando foi ver, o cachorrinho estava falando com a namorada no celular. Bom, é verdade que a história da lagoa dá para acreditar, mas a do cachorrinho...

Depois de muita risada, questionamos o tio Zé, com todo respeito, de onde vinha a capacidade de contar mentiras. Então ele disse: "A verdade é pouca. Se a gente não inventar, a gente fica sem assunto. A conversa acaba e não tem como passar o dia. Vai ficar contando só verdade? O assunto acaba".

Para mim, o tio Zé tinha acabado de contar uma verdade filosófica. Em outras palavras, ele tinha acabado de sintetizar livros e tratados de filosofia numa única frase: "A verdade é pouca". "A gente precisa inventar". Pois, a filosofia se não for a busca pela verdade, é um esforço para mostrar que muitas teorias ou conceitos tidos como verdades, não são verdadeiros, são inventados. Muitas verdades não passam de crenças, invenções. Ou seja, habituamo-nos a teorias que nos são transmitidas e ensinadas, seja pela tradição ou pelos meios de comunicação, sem questionarmos a verdade. Disso decorrem várias críticas, como a de Karl Marx às ideologias.

Se podemos encontrar a verdade é outra história, investigada em bons e longos tratados. Mas ter consciência da "invenção da verdade" já é um importante passo e uma nobre postura filosófica. A teoria do tio Zé não só me lembrou a minha dissertação de mestrado, mas também me ajudou a encarar o problema da verdade com mais leveza.

domingo, 16 de maio de 2010

Sentimento

Por Anderson Araújo

Estudar fica mais leve e mais prazeroso quando reconhecemos o valor do estudo entre outros valores. Por que será tão difícil criar a disciplina ou o hábito de sentar e ler um livro ou fazer uma tarefa? Porque isso geralmente lembra uma condenação para muitas pessoas. Porque a nossa cultura habituou-se em castigar as crianças por meio dos estudos. O ato de estudar deve ser algo prazeroso, como uma brincadeira, sobretudo porque brincadeira de criança é muito séria: só pode brincar quem aceita a verdade contida no "faz de conta".

(A arte na pedra é do "Frater Henrique"- Igarapé/MG).

terça-feira, 11 de maio de 2010

A Consciência Ética em Gandhi e o Método da Não-violência

Por Anderson Araújo


A história nos revela exemplos de homens que lutaram pela paz no mundo e pela liberdade humana. Gandhi se destaca na história por seu amor e dedicação à vida, por seu cuidado com todas as coisas que existem no mundo. Podemos dizer que Gandhi possuía uma consciência ética.

Gandhi, em princípio, lutou pela independência da Índia. É o que podemos falar, resumidamente, da vida deste homem. Porém, ao lutar pela independência da Índia, Gandhi o fez também pela independência do homem inglês que explorava a Índia, pela independência do homem europeu, enfim, pela independência do ser humano!

Mas, Gandhi também teria lutado pela independência dos exploradores da Índia, isto é, pelos ingleses? Conhecemos a história e sabemos que Gandhi lutara tão somente pela independência da Índia. Mas, o método, isto é, o caminho que ele utilizou para lutar pela independência do seu país é marcado por uma preocupação não só com o seu povo, os indianos, mas com o ser humano. O objetivo de Gandhi nesta luta foi a liberdade e a paz para o ser humano, e não apenas para o seu povo.

O caminho utilizado por Gandhi: a não-violência. Não-violência não significa passividade, ou resignação, mas uma luta mais ativa que a luta armada. Porque só homens disciplinados, de bons hábitos, conhecedores de si mesmos e dos seus ideais e, portanto, da sua causa, podem utilizar o método da não-violência. Gandhi sabia que uma boa ação, realizada uma única vez não faria diferença na vida do seu povo. É preciso ser bom sempre, respeitar todos os dias a natureza e a vida; mostrar-se indignado todos os dias com a mentira e o egoísmo e, certamente o mais importante: é preciso dialogar sempre!

Gandhi ensinou a virtude para o mundo inteiro, ensinou-nos como podemos ser livres e como podemos cuidar da morada humana, isto é, como podemos ser éticos. Porque o mundo, que é a morada comum a todos os homens, não depende apenas do gesto de uma pessoa para que ele continue habitável, mas do esforço de todos os seres humanos, de gestos simples; jogar uma casca de banana na lixeira, dizer um bom dia ao outro e pedir perdão aos nossos pais, aos nossos filhos, e aos nossos amigos.

Há um provérbio que diz: Não é a chuva forte que nos dá uma boa colheita, mas aquela chuva que cai mansinha todos os dias sobre os nossos campos. É urgente que sigamos o exemplo de Gandhi, pois só teremos uma boa colheita, ou seja, só colheremos a paz e a liberdade se regarmos todos os dias as nossas vidas com diálogo e boas ações.

O filósofo Michael Foucault diz que não existe o poder. Mas, relações de poder. Porque o poder circula entre as pessoas. E é o que caracteriza a liberdade. Assim, por exemplo, num diálogo, quando escutamos, silenciosamente, o que o outro fala, damos ao outro o poder de falar.

Hannah Arendt, também filósofa, nos ensina que, se o poder foi tomado por uma pessoa, não há poder, mas violência. Porque o poder não pode ser tomado, mas dado. Assim, quando elegemos um representante, damos à outra pessoa o poder de nos representar. Arendt escreve: “A forma extrema de poder é o todos contra um. A forma extrema da violência é o um contra todos (...) A violência de um contra todos nunca é possível sem armas. A violência distingue-se por seu caráter instrumental”.(Hannah Arendt, Sobre a Violência).

Assim, aprendemos com os filósofos que, quando agimos com violência verbal ou física, estamos distanciando-nos do poder, e afastando-nos do que nos faz humanos; da capacidade de nos expressarmos através do diálogo. Gandhi também nos ensina isso, mas vai além. Mahatma Gandhi, “grande alma”, como foi chamado, nos ensina que um ato violento é injustificável, e que um bom soldado é um homem virtuoso que se cultiva com bons hábitos e pratica boas ações.

“Considero-me um soldado, mas um soldado da paz”. (Gandhi)

HISTÓRIA

Para quem tiver interesse em conhecer melhor a vida de Gandhi:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mahatma_Gandhi



quinta-feira, 6 de maio de 2010

O Que é o Tempo?

Por Anderson Araújo

Santo Agostinho, um filósofo cristão, elabora um pensamento divertido e interessante sobre o TEMPO. Primeiramente, Agostinho se faz a seguinte pergunta: “O que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?” Através dessa pergunta o filósofo chegou a soluções geniais, que se tornaram muito famosas.


Antes de Deus criar o céu e a terra não havia tempo e, portanto, não se pode falar de um “antes” antes da criação do tempo. O tempo é criação de Deus e, por isso, a pergunta proposta não tem sentido. Mas, vamos insistir com Agostinho, então, o que é o tempo?


O tempo implica passado, presente e futuro. Mas o passado não é mais e o futuro não é ainda. E o presente, diz Agostinho, “se fosse sempre e não transcorresse para o passado, não seria mais tempo, mas eternidade”.


Para Agostinho, o tempo existe na mente do homem, porque é na mente do homem que se mantém presentes tanto o passado como o presente e o futuro. E de qualquer forma, é na nossa mente que se encontram esses três tempos, que não são vistos em outra parte: o presente do passado, que é a memória; o presente do presente, isto é, a intuição; o presente do futuro, ou seja, a espera.


Os sábios e os filósofos nos ensinam que a qualidade de vida depende da nossa capacidade de aproveitar o tempo. Ou seja, vive melhor quem sabe aproveitar o seu tempo.


Os antigos diziam uma frase em latim muito interessante sobre isso: “Carpe diem”, que significa: “Aproveite o seu dia”, “Aproveite o seu tempo”. Mas aproveitar o tempo, ou aproveitar o dia, é fazer sempre o que gostamos? Parece-me que aproveitar o tempo é fazer o que é necessário fazer em cada momento. Pois, a pessoa que deixa tudo para a última hora sofre tentando manipular o tempo. Logo, não vive bem. Carpe diem!